A Rainha Mafalda e o Mosteiro de Arouca

A Rainha Mafalda e o Mosteiro de Arouca

 

O património molda a paisagem, a vida cultural, económica, social e religiosa de uma região. A história de Arouca com o seu Mosteiro, é prova disso. Vamos visitá-los?

Túmulo da Rainha Santa Mafalda na igreja do Mosteiro de Arouca
© Mosteiro de Arouca

Conta a lenda que em Arouca existiu uma Rainha que se tornou Santa. A Rainha Mafalda Sanches (1195-1256), filha de D. Sancho I e neta de D. Afonso Henriques, que casou com Henrique I de Castela. Um matrimónio que acabou por ser anulado por nunca ter sido consumado, devido à morte precoce do jovem rei e pela existência de graus de parentesco próximos. D. Mafalda dedicar-se-á então à vida religiosa e recolhe-se no Mosteiro de Arouca em 1217, o qual terá recebido por legado do pai.

Rainha e abastada, D. Mafalda herdava desta forma um Mosteiro que foi fundado na primeira metade do séc. X, acolhendo monges e monjas, até que em 1154 se torna unicamente feminino. Apesar de ser um Mosteiro benedito, a Rainha Mafalda decidiu adotar a regra de Cister, indo de encontro à corrente espiritual da época, o que levou à reforma da regra por bula papal em 1226.

A partir de então as monjas substituíram o hábito negro da Ordem de S. Bento pelo branco da Ordem de Cister e o Mosteiro, outrora pobre, passou a viver um momento de prosperidade, já que a presença da Rainha atraia as filhas dos nobres endinheirados da nação, tornando-se um mosteiro elitista cujas monjas se recrutavam no seio da alta nobreza. Mafalda nunca professou para não ter de abandonar o lugar de Rainha, de poder, de influência e de independência da Igreja, dentro e fora de portas do Mosteiro.

© Mosteiro de Arouca

Apesar de ter ficado conhecida como Santa, a Rainha Mafalda é na verdade Beata. João Duarte, funcionário da Câmara Municipal de Arouca afeto ao Mosteiro de Arouca, conta como terá acontecido. “Mafalda morreu em 1256 em Tuias (Marco de Canaveses) no antigo Mosteiro que lhe pertencia. Segundo a lenda, o seu corpo foi trazido até Arouca em cima de uma burra que durante o percurso parou quatro vezes: em Ermida (Penafiel), Alpendorada (Marco de Canaveses), Sobrado (Castelo de Paiva) e Santo António (Arouca). Curiosamente, em cada um destes locais já existia pequenos marmoirais (monumentos fúnebres) que a partir dai vão ser sempre associados à vida da Rainha Mafalda e à passagem do seu cortejo fúnebre. Depois é sepultada aqui na igreja”.

Ao longo do tempo o povo atribuiu-lhe numerosos milagres, pelo que as autoridades eclesiásticas deram início a um longo processo de canonização que terá terminado cinco séculos após a sua morte. “Na igreja encontra-se o túmulo original onde a Rainha foi sepultada desde 1256 até à beatificação em 1793. Quando foi beatificada, os restos mortais foram colocados num pequeno cofre. Foi feita uma figura que teria o aspeto de Mafalda e lá dentro encontra-se os seus restos mortais. Esta figura tem também a coroa da rainha e é uma imagem muito venerada aqui em Arouca”.

Estátua Jacente de Santa Mafalda no Museu de Arouca
© Mosteiro de Arouca

Ao visitarmos o Mosteiro, ainda hoje é visível que a presença de D. Mafalda continua viva em cada sala, no coro, na igreja, na coleção de arte sacra e na devoção da população à Rainha que marcou o desenvolvimento socioeconómico da região e se tornou Beata, recebendo a atenção de milhares de devotos e peregrinos ao longo dos anos.

A vida do Mosteiro no séc. XXI

Atualmente o Mosteiro de Arouca continua a ser um monumento central na vida da região, com forte enfoque cultural, educativo, recreativo, turístico e, naturalmente, religioso através da sua igreja e da coleção de arte sacra. Classificado como Monumento Nacional desde 1910, a propriedade e tutela do edificado encontra-se hoje sob a responsabilidade do Património Cultural, IP que em colaboração com Câmara Municipal de Arouca e a Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda de Arouca (RIRSMA) garantem a gestão do monumento.

Esta é uma iniciativa inédita de gestão do património envolvendo várias instituições, que teve início em janeiro de 2022, e que tem sido muito profícua, como explica Laura Castro, Vice-Presidente do PC, IP. “A gestão deste monumento beneficia de uma parceria que promovemos recentemente, entre o Estado Central, a autarquia de Arouca e a Real Irmandade, assente num conjunto de deveres assumidos pelas três entidades. Trata-se, na prática, de dar corpo à responsabilidade partilhada que todos advogamos quando estamos perante património tão significativo para a comunidade local e para o país”.

Fundado entre 915 e 925, o Mosteiro transitou para o Estado português em 1886 quando faleceu a última monja que ali residia, altura em que também se constituiu a Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda de Arouca. Esta assumiu a proteção, salvaguarda, investigação e divulgação da coleção de arte e de todo o acervo que a Rainha e as monjas foram adquirindo, tendo em 1933 sido inaugurado o respetivo Museu de Arte Sacra.

Apesar de ao longo dos séculos o Mosteiro ter sofrido alterações profundas naquelas que terão sido as instalações monásticas medievais iniciais, o espaço foi-se adaptando aos tempos, e hoje através da gestão tripartida o Mosteiro está também num processo de dinamização do Monumento, com projetos importantes de abertura aos cidadãos. Após a inauguração, em janeiro de 2022, de um novo centro de acolhimento aos visitantes, está agora em curso no âmbito do Programa Revive a reabilitação da ala sul do Mosteiro que irá acolher uma unidade hoteleira, cujo investimento total para a recuperação do edificado está estimado em 4,5 milhões de euros.

A joia mais bem guardada do Mosteiro – o Museu

Em planificação está também um novo projeto museológico para o Museu de Arouca, cujo objetivo será, em poucos anos, oferecer um moderno percurso aos visitantes onde poderão ficar a conhecer a fantástica coleção de arte que aqui foi sendo constituída ao longo de séculos. Desde os primitivos portugueses aos pintores da Escola de Viseu “não se estuda a história de arte portuguesa sem se passar por aqui”, garante Agostinho Ribeiro, coordenador do Mosteiro de Arouca e representante do PC, IP.

Na coleção encontram-se obras de pintores como Diogo Teixeira, Bento Coelho da Silveira, Josefa de Óbidos ou pintores da Escola de Grão Vasco. “São nomes que encontramos no Museu Nacional Grão Vasco, no Museu Nacional Soares dos Reis, no Museu Nacional de Arte Antiga. É o mesmo núcleo de artistas que alimenta essas coleções». A diferença é que «nos Museus essas pinturas vieram de outras proveniências, enquanto estas foram pintadas exatamente para este Mosteiro”.

Pintura a óleo sobre madeira Dúvida de São Tomé, de Diogo Teixeira (séc. XVI) no Museu de Arouca
© Lúcia Vinheiras Alves

A coleção do Museu de Arouca, que data do final do séc. XII/início do séc. XIII até ao séc. XVIII, é composta por mais de 500 peças de pintura, escultura, mobiliário, tapeçaria, ourivesaria, paramentaria e documentação, sendo que a maioria é de produção nacional. No total, encontram-se expostas cerca de 200 peças que se espalham ao longo de várias salas e corredores, numa disposição que deverá ser melhorada com o novo projeto museológico. “Hoje vemos os museus verdadeiramente tipificados, pelas respetivas categorias. Com salas de pintura, de escultura … têm a sua cronologia, um ordenamento temático e narrativo. O que queremos fazer é atualizar o Museu, dar-lhe essa componente e fazer uma narrativa pedagogicamente favorável à interpretação do património artístico móvel que aqui se encontra e que permita interpretar e explicar a história do próprio Mosteiro e, desta forma, passar a ser o Museu do Mosteiro de Arouca”, conclui o coordenador.

Mas não é apenas em Arouca que podemos conhecer o acervo e a história do Mosteiro. Atualmente está patente no Castelo Trakošćan, em Bednja, na Croácia, uma exposição que inaugurou a 10 de maio, intitulada The Woman in the Life of the Monastery of Arouca, que retrata o importante papel que dez mulheres tiveram na vida deste mosteiro ao longo da sua história. A escolha foi feita pela equipa do Mosteiro com base em uma investigação histórica profunda, com recurso a bibliografia, historiadores e investigadores locais. Estas mulheres possuíam “cargos, funções e feitos diferenciados na história do Mosteiro de Arouca, mas tendo em comum uma extrema importância na vida monástica arouquense (e portuguesa), sendo exemplos do papel diferenciador, importante e poderoso que as mulheres tiveram ao longo da História”.

Em fase de elaboração encontra-se ainda uma exposição para breve (2025/2026), onde o Mosteiro de Arouca apresentará a sua história e coleção mais significativa na Galeria de Exposições do Palácio da Cidadela, em Cascais.

O Coro das Monjas

© Lúcia Vinheiras Alves

Quem vai a Arouca não pode deixar de visitar a igreja construída entre 1704 e 1730. Para além da presença dos restos mortais da Rainha Mafalda e do magnífico altar, encontra-se, ao fundo, um fabuloso Coro das Monjas. Um coro baixo, separado da nave e da capela-mor, que é composto por um cadeiral feiro em madeira de jacarandá (oriunda do Brasil) com 104 lugares, onde as monjas rezavam sete vezes por dia, sete dias por semana. Apesar de ser um cadeiral, as monjas rezavam de pé, e verifica-se ainda hoje que quando as cadeiras estão recolhidas existe em cada uma delas uma “misericórdia”, ou seja, um ponto de apoio para encosto quando nos encontramos de pé. O curioso é que estas misericórdias encontram-se personalizadas individualmente com um rosto, todos eles diferentes, sendo que um tem a particularidade de possuir óculos. “O cadeiral não tem lugares numerados, no entanto, as misericórdias são todas diferentes, o que poderia ser uma forma de diferenciação dos lugares, existindo lugares destinados à Abadessa e às monjas mais importantes”, conta-nos João Duarte.

Por cima do cadeiral existem retábulos de talha-dourada com pinturas com motivos estritamente religiosos, com passagens da Bíblia, representações de santos, de Cristo, e existe até uma pintura que tem a particularidade de representar a Última Ceia, mas … numa mesa-redonda. Verifica-se também uma série de pinturas que retratam a entrada e a vida da Rainha Santa Mafalda no Mosteiro até à sua morte. Por cima dos retábulos, ao longo do Cadeiral e da respetiva igreja, erguem-se fantásticas imagens de pedra de Ançã, esculpidas por Jacinto Vieira.

Sabia que …

Na igreja do Mosteiro de Arouca existe um órgão de tubos considerado pelos especialistas como um dos instrumentos mais importantes da escola de organaria ibérica em todo o mundo. É um órgão ibérico de 1743, produzido pelo organeiro Manuel Benido Gomes Herrera, de Valladolid, composto por 1352 tubos, com 24 registos de música diferentes. Foi restaurado em 2009 pela mão de Gerhard Grenzing, organeiro de origem alemã sedeado em Barcelona e especializado na recuperação de órgãos do tipo ibérico, sendo, por isso um dos órgãos que se encontra mais intacto em Portugal, não tendo sofrido grandes alterações a partir do seu estado original. A grande mudança que se verificou foi a instalação de um sistema mecânico para fazer movimentar os foles e assim substituir a força humana.

© Mosteiro de Arouca

O organista titular é Paulo Bernardino e a Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda de Arouca organiza com uma certa periodicidade concertos gratuitos e abertos ao público. Os próximos concertos do grupo “Iberian Ensemble” estão previstos para 5 de julho às 21h00 e 14 de setembro às 19h00. Mas há já uma série de outros concertos em agenda para os próximos meses, como a 21 de julho um do festival “Cistermúsica” de Alcobaça, integrado na Recriação Histórica organizada pelo Município “Arouca: História de um Mosteiro”; e a 27 de julho, um concerto de órgão pelo organista Rui Soares (organista da Igreja dos Clérigos no Porto), no âmbito da comemoração do aniversário da Santa Casa da Misericórdia de Arouca. Para além destes, todos os anos realiza-se em agosto e setembro o Ciclo Ibérico de Órgão Rainha Santa Mafalda, sendo que pontualmente o órgão é também utilizado em outras iniciativas públicas ou durante a liturgia.

Texto e imagem de Lúcia Vinheiras Alves / PC, IP
Imagens de Mosteiro de Arouca

Texto elaborado para a “NEWSLETTER PATRIMÓNIO CULTURAL, I.P.”, nº 2 [maio 2024].