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Património Industrial - Arquitectura Industrial Moderna (1925-1965)

UEP – Subestações da União Eléctrica Portuguesa

Designação

UEP – Subestações da União Eléctrica Portuguesa

Freguesia / Concelho / Distrito

Setúbal

Função

Indústria Energética: edifícios industriais-administrativos-sociais

Época

Projecto entre 1948-65

  • Fachada Principal / Foto: DE/ IPPAR

  • Área fabril / Foto: DE/ IPPAR

  • Área fabril / Foto: DE/ IPPAR

  • Área fabril / Foto: DE/ IPPAR

Caracterização

Autores: Arqº Francisco Keil do Amaral e Engº Álvaro Freitas (Subestação de Coina)

Colaborador: René Touzet (Subestação de Coina)

A UEP (União Eléctrica Portuguesa) surge na sequência da constituição em 1947 da CNE (Companhia Nacional de Electricidade) que tinha como objectivo estabelecer e explorar linhas de transporte e subestações destinadas ao fornecimento de energia eléctrica aos concessionários da grande distribuição (indústrias electroquímicas, electrometalúrgicas, grandes planos de rega, etc.) na sequência lógica das duas primeiras peças da Rede Eléctrica Nacional, os aproveitamentos hidroeléctricos do Cávado e Zêzere.

A arquitectura é chamada a responder a estes programas no quadro do que podemos designar por design industrial: tratava-se projectar a forma do produto. O que significava coordenar, integrar e articular todos os factores que participam no processo constitutivo da forma de um produto, visando-se a criação de objectos ao mesmo tempo funcionais e estéticos, mas também conformes aos imperativos de uma produção industrial. Articulando dois conceitos (o útil, porque funcional; o belo, porque estético), mas também da ideia de reprodutibilidade, de série, factor integrante da produção industrial.

A acção de Keil do Amaral cobriu uma área geográfica que se estende por toda a península de Setúbal. O complexo integrava a subestação com um programa eminentemente industrial de produção, transformação e transporte de energia. Mas também todos os serviços de apoio desde os edifícios de baixa tensão, administrativos, incluindo instalações de carácter social. As subestações vão ser pensadas justamente como modelos repetíveis, pontualmente adaptados à especificidade geográfica de cada implantação.

A subestação de Coina (com a colaboração dos engenheiros Álvaro de Freitas e do empreiteiro René Touzet), vai de algum modo constituir o modelo da série. Conjugando os três principais elementos - sala dos monoblocos, sala de comando e torre de desmontagem dos transformadores - cujo equipamento pelas suas dimensões constitui forma e função, isto é, a "base do estudo funcional do conjunto". O corpo principal, térreo e longilíneo, integra a sala de comando e a grande nave que a abriga os monoblocos. Foram eles que determinaram o espaço entre pórticos, o sistema de ventilação e iluminação. Os pórticos constituem a base do sistema construtivo portante vencendo um vão livre de 10 metros e um duplo pé-direito estrutural de 7,5 metros. O seu perfil alteado na flecha permitiu utilizar uma solução de iluminação com a introdução de uma cobertura plana em dois níveis que é alteada no troço central permitindo quer a entrada de luz lateral, quer a zenital, através da malha reticulada aberta no betão. Também a sala de comando virada a sul recebeu uma iluminação temperada por um dispositivo de três quebra-sóis em chapa de alumínio.

  • Fachada Principal / Foto: DE/ IPPAR

  • Área fabril / Foto: DE/ IPPAR

  • Área fabril / Foto: DE/ IPPAR

  • Área fabril / Foto: DE/ IPPAR

Caracterização

Na sequência deste corpo principal, ligado por uma passagem coberta, a torre de desmontagem dos transformadores constitui o elemento de referência de todo conjunto. Tratada com um entendimento planimétrico que recorda as pesquisas neoplastas, a cobertura plana é como que separada dos planos verticais criando uma expressiva flutuação. O seu volume de torre, é tornado elemento "monumental" e significante, onde se abre o lettering publicitário UEP, assinalando metaforicamente a presença deste equipamento inovador no início dos anos 50 em Portugal. O conjunto era completado por um cuidado arranjo dos espaços exteriores que incluía o desenho dos extensos muros de vedação, bem como a casa do técnico envolvida por um ambiente natural verde que lhe conferia um ambiente doméstico em contraste com a atmosfera feérica dos transformadores, como esculturas da electrificação, implantados à frente da torre e corpo principal.

Seguiu-se a subestação do Barreiro em 1958, Sobreda no ano seguinte e S. Francisco em 1965 num processo evolutivo onde é claro o amadurecimento no tratamento do programa e na manipulação dos materiais, utilizando-se preferencialmente o betão aparente tratado como elemento gráfico, ou o tijolo revelado na sua potencialidade textural.

Do mesmo modo, os edifícios de serviços de baixa tensão e apoio administrativo em Almada, Setúbal e Cachofarra exemplificam a dignificação crescente dos equipamentos industriais, referenciados à função eléctrica que os justifica. A "Integração das 3 artes", com recurso a magníficos painéis de azulejos realizados pela pintora Maria Keil, mulher do arquitecto, são inovadoramente a consequência lógica das determinantes usadas na base deste processo conceptual, aqui também se recorrendo a um sistema padronizado, onde é sempre possível trabalhar pontuais diferenças. O painel que cobre toda a parede que suporta a escada do edifício da Cachofarra é exemplar, baseando-se na depuração das imagens simbólicas da electrificação.

Finalmente no quadro dos equipamentos sociais da empresa não podemos deixar de destacar a Colónia de férias de Palmela, pela integração paisagística de uma arquitectura assumidamente de sentido orgânico mas que não esquece a racionalidade dos princípios mais radicais do movimento moderno, prática que caracteriza o trabalho de Keil do Amaral.


Ana Tostões/ Docomomo Ibérico
Junho 2002


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