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Norte Júnior - Itinerários 1930 - 1947

Introdução

Ao longo do ano de 2014 uma série de eventos celebraram a obra de Norte Júnior, o arquiteto lisboeta que venceu o maior número de prémios Valmor até aos dias de hoje. Decorrente desse ano celebrativo, a Direção Geral do Património Cultural, através da Divisão de Inventário do Património Imóvel, Móvel e Imaterial/Departamento de Bens Culturais (DPIMI/DBC), em parceria com a Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), desenvolveu um projeto de inventário dedicado à obra de Norte Júnior, fazendo um exaustivo levantamento em todo o país.

À DGPC/DPIMI coube o inventário sistemático do legado Norte Júnior que beneficia de alguma forma de proteção legal, ou seja, que está classificado, em vias de classificação, inserido em conjuntos classificados ou abrangido, simultaneamente, em áreas de proteção de imóveis classificados. O desafio colocado foi o de conhecer a obra de Norte Júnior que beneficia de alguma forma de proteção, e propor a classificação individual de alguma da sua obra. Este inventário foi realizado com base na consulta de arquivo, fundamentalmente o da Câmara Municipal de Lisboa, de bibliografia e com a visita aos edifícios, permitindo observar o seu estado de conservação, e a manutenção ou alteração do projeto original.

Mapa

Critérios

O arquiteto

Manuel Joaquim Norte Júnior (1878-1962) foi um dos mais reconhecidos arquitetos do movimento eclético português. Depois de uma rápida formação em Paris na École des Beaux-Arts e no Atelier Pascal, durante o ano de 1903, regressou a Portugal para trabalhar com os arquitetos Rosendo Carvalheira (1864-1919) e Adães Bermudes (1864-1948). Depressa estabelece o seu atelier, e a primeira obra solicitada ao jovem Norte chegou por mão do pintor José Malhoa (1855-1933), que em 1904 lhe encomendou o singular e inovador projeto da sua casa-atelier na cidade de Lisboa. O arquiteto iniciava então uma extensa carreira, durante a qual ganhou cinco distinções principais e duas menções honrosas do Prémio Valmor, mantendo-se ativo até ao final da sua longa vida.

A obra

Norte Júnior é conhecido pelos espaços habitacionais que desenhou, tanto palacetes como prédios plurifamiliares, mas soube também mostrar a sua perícia enquanto projetista ao desenhar espaços de tipologia tão distinta como cinemas, escolas, armazéns, bancos, estâncias termais ou edifícios de assistência hospitalar. A todos imprimiu a faceta de arquiteto decorador pela qual é recordado, em programas decorativos de aprimorada elegância. Nas obras mais tardias, das décadas de 30 e 40, manteve o seu cunho pessoal face a um Modernismo emergente.

Atualmente, são referenciadas mais de 150 obras e projetos da sua autoria, que o evidenciam como um arquiteto exímio, revelando-se não apenas excecional no desenho do exuberante ornato que ao Ecletismo se pedia, mas também extraordinário nas soluções estruturais dos espaços que projetou, apresentando soluções construtivas atuais e funcionais. E nesta simbiose Norte Júnior foi, também, o eclético por excelência.

1930-1947

Os anos de 1930 e 1947 balizam a segunda etapa da carreira de Norte Júnior, durante a qual os projetos que executou em Lisboa foram, sobretudo, de prédios de habitação, alguns destinados ainda à zona das Avenidas Novas – agora cingidos ao eixo República-Berna, mas a maioria edificada nas artérias que iam ocupando a área circundante à Rotunda – a Camilo Castelo Branco e a Rodrigues Sampaio - e ao Parque Eduardo VII – a Duque de Palmela, a Castilho, a Joaquim António de Aguiar, a António Augusto de Aguiar, chegando ao Bairro Azul.

Muito semelhantes, em termos de distribuição planimétrica, aos imóveis plurihabitacionais que desenhou na cidade entre 1905 e 1929, estes edifícios das décadas de 30 e 40 distinguem-se dos primeiros pelo programa decorativo exterior, muito mais ao gosto dos seus encomendantes, oscilando entre belíssimos (mas tardios) modelos art deco, imponentes fachadas neo-barrocas e edifícios compostos por linhas geométricas simples que se estendiam dos frontispícios aos elementos decorativos interiores, como candeeiros ou corrimões.

Saliente-se que nestes projetos da segunda fase, Norte Júnior não deixou de imprimir o cunho pessoal que era característico da sua fase eclética. A muitos destes edifícios não faltam portas de ferro forjado com desenhos Arte Nova, máscaras a rematar pilastras embutidas nas fachadas, e aquela que será a característica mais peculiar do seu desenho, reconhecida na moldura das janelas, em que cada andar apresenta uma tipologia diferente (igual em todo o piso), solução que permite uma demarcação mais acentuada dos pisos na fachada, formando no entanto um conjunto harmonioso ao nível da sua concepção.  

Norte Júnior integrou ainda o corpus de arquitetos que realizaram a urbanização inicial do Bairro do Restelo, desenhando cinco moradias de gosto Casa Portuguesa para este novo polo urbano. Já muito arreigado do ecletismo que sempre o caracterizou, adivinha-se neste núcleo o peso do gosto (e da decisão) dos encomendantes e não do arquiteto.