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Património Industrial - Arquitectura Industrial Moderna (1925-1965)

Aproveitamento Hidroeléctrico do Douro Internacional

Designação

Aproveitamento Hidroeléctrico do Douro Internacional

Freguesia / Concelho / Distrito

Miranda do Douro / Miranda do Douro / Bragança

Função

Indústria Energética: edifícios industriais-administrativo-sociais

Época

Miranda: projecto entre 1955-58 e inauguração em 1960
Picote: projecto entre 1954-61 e inauguração em 1958
Bemposta: projecto entre 1958-64 e inauguração em 1964

  • Centro de Produção do Douro

Caracterização

Autores: Arqsº Archer de Carvalho, Rogério Ramos e Nunes de Almeida
Colaboração: Luís Cunha, Pádua Ramos, António Cândido, Hildeberto Seca, Fernando Paula, Júlio Resende, Fernando Leal, Costa Pereira, Feitas Leal, Mota e Sousa, Lúcio Miranda e Barata Feyo

Sobre o modelado terreno, da região nordeste portuguesa, dispõem-se os três aproveitamentos hidroeléctricos de Miranda, Picote e Bemposta, criados pela acção da Hidouro - Hidroeléctrica do Douro, S.A.R.L., constituída em 1953 na conjuntura de uma estratégia de desenvolvimento e modernização do país, que passava, necessariamente, pela rentabilização dos recursos energéticos. Situados na bacia hidrográfica do rio Douro — no troço internacional reservado a Portugal pelo Convénio Luso-Espanhol celebrado em 1927 —, estes três complexos corporizam, no seu conjunto, a clarificação de uma nova concepção da arquitectura desencadeada durante as décadas de 50 e 60 pelos jovens arquitectos que, então, se investiam quer na discussão formal e ideológica da adaptação dos cânones do Movimento Moderno e dos princípios da Carta de Atenas, como no que concerne à renovação da sociedade moderna dentro de uma nova dimensão ética da profissão.

Debate que acompanhou, envolveu e conferiu um contexto discursivo aos jovens arquitectos Archer de Carvalho, Nunes de Almeida e Rogério Ramos — formados na Escola de Belas Artes do Porto — que, entre 1953 e 1954, integraram o corpo técnico da empresa, dedicando-se com total exclusividade à concepção destes equipamentos.

Tratou-se, antes de mais, de um projecto de convergência de saberes, que num só gesto traçou a proposta desde o plano geral ao cuidado “obsessivo” pelo detalhe, revelando admirável capacidade no domínio da escala, no uso dos materiais e sua presença expressiva, na adequação de um programa polifuncional — desde as construções técnicas aos bairros, pousadas, capela e zonas de recreio — à experiência quotidiana dos novos valores económico-sociais, qualificadamente integrados nas condições naturais e paisagísticas do lugar.

  • Barragem de Picote / Foto: DE/ IPPAR

  • Edifício de Comando e Descarga / Foto: DE/ IPPAR

  • Capela / Foto: DE/ IPPAR

Referentes que se confirmam, de forma particularmente conseguida, em Picote, o primeiro dos três escalões a entrar em funcionamento (1958), cujo Edifício de Comando e Descarga — implantado à cota do coroamento da barragem de dupla curvatura —, supera a ideia convencional (seca e fria) de edifício técnico, quer pelo tratamento texturado e colorido da superfície das fachadas, quer pela modulação dos volumes que enfatizam a articulação das suas funções internas. À variedade plástica deste conjunto, que insinua o legado moderno da experiência brasileira, acrescenta-se o rigor geométrico da estalagem para pessoal dirigente, articulada por dois corpos encastrados, cuja depuração formal prolonga a imagem da notável capela, concebida como uma “caixa” em tijolo dentro de um receptáculo porticado. Este avança sobre o espaço exterior e enquadra entre o ritmo dos pilares a grandiosidade de uma paisagem agreste, redefinida e domesticada para a construção de um sistema auto-suficiente, urbanamente capaz de comportar o quotidiano de uma população de 4000 pessoas.

  • Capela / Foto: DE/ IPPAR

  • Habitações Barragistas / Foto: DE/ IPPAR

  • Habitação – quadros técnicos superiores / Foto: DE/ IPPAR

  • Pousada / Foto: DE/ IPPAR

Embora dentro do mesmo processo de redefinição da paisagem, a modernidade celebrada em Miranda — o segundo escalão a entrar em funcionamento (1960) — irrompe de forma distinta da gerada em Picote ou Bemposta, pela proximidade imediata da cidade com o mesmo nome, que exigiu um repensar da arquitectura na sua função programática mas também histórica, construindo novas memórias e qualidades urbanas ao local. Aspectos visíveis na própria presença da barragem — contrafortada e munida de quatro vãos de descarga —, cujo coroamento viabilizou a ligação entre os dois países ibéricos, ou no estudo dos volumes puros, cilíndricos, da Estação de Tratamento de Águas, tangentes aos muros da cidade, que se acrescentam à riqueza formal das torres da catedral. Mas, também, na definição clara e despojada dos Edifícios de Comando e Descarga, assente na margem direita do rio sobre uma plataforma artificialmente criada.

  • Pousada / Foto: DE/ IPPAR

  • Barragem de Miranda / Foto: DE/ IPPAR

  • Edifício de Comando e Descarga / Foto: DE/ IPPAR

O caso de Bemposta, confirma a opção projectual do rigor compositivo, que não esconde ou dilui as “arestas” de uma arquitectura estranha ao lugar realçando, pelo contrário, a singularidade plástica de uma nova poética formal, que deixa entrever a interpretação e filtragem das propostas internacionais, manifesta, entre outros aspectos, na gestão expressionista dos novos sistemas e materiais construtivos — visível, por exemplo, no magnífico aparelho de xisto entre placas de betão, disposto na fachada do Edifício de Comando. Articulados entre si mediante um passadiço ao nível do primeiro piso, os edifícios de Comando e Descarga, dominam a paisagem quer pela sua localização sobrelevada, no encontro do coroamento da barragem com a margem direita, quer pela articulação da sua massa volumétrica, rica em elementos geometrizados, onde sobressai o remate da cobertura do Edifício de Descarga, ou os envidraçados salientes da sala de comando.

Visível no estudo dos percursos ou na articulação, quase neoplasticista, dos planos rectos dos muros das habitações, com coberturas de pouca pendente.

  • Barragem de Bemposta / Foto: DE/ IPPAR

  • Edifício de Comando e Descarga / Foto: DE/ IPPAR

  • Bairro dos Barragistas / Foto: DE/ IPPAR

Há, ainda, a assinalar «as arrepiantes monumentais naves subterrâneas»1, espaços emocionantes, erguidos como verdadeiros monumentos à modernidade, que permitiram a criação de condições de conforto no ambiente de trabalho fechado e subterrâneo das centrais escavadas, atingindo um desenvolvimento surpreendente no caso de Miranda, pelo tratamento da abóbada, forma dos pilares na sua articulação com a ponte rolante e dramatização geral do espaço enfatizado pelo trabalho da luz.

Diante da singular harmonia desta nova “natureza”, arquitectura assumiu sem receio a abertura a um diálogo recriador com o contexto em que se integra, «como se de um novo início se tratasse, não de um processo, mas da concretização instantânea, total e definitiva de uma nova estrutura civilizacional»2.

O aproveitamento hidroeléctrico de Picote, situa-se na bacia hidrográfica do Douro (com uma área de 97000km2), no troço fronteiriço com Espanha, designado por Douro Internacional.

O Edifício de Comando e Descarga implanta-se num vale profundamente encaixado entre margens muito abruptas, junto ao coroamento da barragem à cota 480.

A barragem forma uma albufeira com uma extensão aproximada de 21 km.

As características hidrológicas do Douro Internacional, dão-lhe uma configuração convidativa ao aproveitamento hidroeléctrico, o que tornou necessária a regulamentação precisa das bases jurídicas e técnicas em que se apoiasse a concepção das obras.

Para além dos importantes contributos ao nível da satisfação de consumos de energia eléctrica nacional, da melhoria das condições de navegabilidade do rio, e criação de postos de trabalho, a exploração deste aproveitamento constituiu, ainda, um factor de progresso e desenvolvimento económico desta região. O aglomerado populacional criado durante a construção do aproveitamento veio trazer novas infra-estruturas para a região.


Rute Figueiredo/ Docomomo Ibérico
Junho 2002


1 Alexandre Alves Costa, “Modernidade como Valor Absoluto”, in Moderno Escondido, Porto, FAUP, 1997, p.9
2 Idem, ibidem.


Classificação

Em vias de classificação o escalão de Picote
Sem protecção os escalões de Miranda e Bemposta