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Património Industrial - Arquitectura Industrial Moderna (1925-1965)

HICA – Hidroeléctrica do Cávado

Designação

HICA – Hidroeléctrica do Cávado

Freguesia / Concelho / Distrito

Vieira do Minho / Braga

Montalegre / Vila Real

Função

Indústria Energética

Época

Projecto entre 1949-61 e construção entre 1951-64

  • Centro de Produção do Cávado

Caracterização

Autores: Arqº Januário Godinho e empresa Hidrorumo – projectos de engenharia, Lda

Em 1945 a HICA - Hidroeléctrica do Cávado inicia o processo de aproveitamento hidroeléctrico do rio Cávado e do seu afluente Rabagão no quadro da política de electrificação do país encetado no pós-guerra. Januário Godinho ficará responsável pela arquitectura de todo o complexo em estreita colaboração com os Serviços Técnicos da Hica inaugurando um novo ciclo de colaboração entre áreas disciplinares complementares na esteira da articulação da unidade procurada pelo Movimento Moderno entre o binómio arte - técnica.

O programa e contexto natural onde se insere o conjunto construído constituiu um desafio singular para o autor. Se nos edifícios técnicos soube renovar qualificadamente a objectividade de construções eminentemente industriais, nas instalações de carácter social, suporte da sobrevivência e bem-estar dos trabalhadores nestas novas implantações territoriais, foi também capaz de revelar uma constante preocupação com o meio natural ao mesmo tempo que procurou construir ambientes assumidamente contemporâneos desenvolvendo pioneiramente um processo crítico regionalista percursor de um modo de trabalhar que seria retomado pela geração ( dos arquitectos nascidos em 30) que em meados dos anos 50 inicia a crítica ao “estilo internacional”.

A construção do primeiro escalão, Venda Nova inicia-se logo em 1946 com uma barragem do tipo abóbada espessa, com uma distância entre encontros de 230 metros e 96 metros de altura máxima. A central ( Vila Nova) edifício porticado de eminente expressão industrial implantado na margem do Cávado, assume-se na crueza dos seus elementos pré-fabricados em betão que são modulados entre extensos panos de vidro. Aproveitando o forte declive da margem dos rio, a subestação assenta sobre uma parte do terraço da cobertura, onde estão instalados os transformadores e a aparelhagem de saída das linhas, conferindo uma insólita atmosfera feérica na paisagem. Das construções sociais de apoio, para além do bairro, a pousada (1949) construída para os técnicos articula um programa que ainda revela uma apertada estratificação social. Valorizando topografia e linhas de vista, a implantação desenha-se em larga curva segundo quatro planos que organicamente se adaptam à forma do terreno, avançando e recuando, alternando panos envidraçados com paredes texturadas no granito ou lisas de alvenaria. Os materiais naturais dão força a esta simbiose que se afirma paradoxalmente através de um desenho vigorosamente moderno contido na expressão das fenestrações, dos pilotis, do balanço da pala de entrada ou do desenho vernáculo das guardas de madeira.

  • Barragem de Venda Nova / Foto: DE/ IPPAR

  • Edifício de Comando e Descarga / Foto: DE/ IPPAR

  • Pousada / Foto: DE/ IPPAR

No segundo escalão, Salamonde, a central é tornada subterrânea com uma subestação exterior. Para a arquitectura é sobretudo nos equipamentos sociais que surgem maiores inovações: quer no bairro, implantado no pinhal e explorando as vantagens dessa ambiência natural, com células-casa colectivas construídas em sistema pré-fabricado; quer na Pousada que revela uma opção mais afirmativa na relação com a natureza. A implantação realiza-se sobre o terreno, quase que em suspensão denunciando uma opção que faz referência aos espigueiros minhotos. Trata-se de um bloco longilíneo rectangular rematado no topo sobre a barragem com uma larga varanda suspensa. O volume da longa fachada poente é desenvolvido organicamente e sujeito a uma ligeira inflexão a partir de um ponto central marcado por uma grande árvore, o centro da linha geradora, criando um espaço de terreiro abrigado, como promontório sobre a barragem lá em baixo. O mesmo sentimento de acolhimento caloroso prolonga-se no interior onde zonas de diferente grau de intimidade são ligadas por espaços de transição tendentes a criar unidade entre a construção e a paisagem.

  • EBarragem de Salamonde / Foto: DE/ IPPAR

  • Vista geral do conjunto / Foto: Brochura da empresa Hidrorumo

  • Edifício de Comando e Descarga / Foto: DE/ IPPAR

  • Pousada / Foto: DE/ IPPAR

No terceiro escalão-Caniçada, a Central subterrânea liga-se ao Edifício de Comando e Descarga articulado em L com a Subestação. É patente um apurado empenho técnico-construtivo manifesto no vocabulário e aplicação de materiais diversos: do betão aparente na estrutura, aos panos texturados de tijolo e à modulação da grelha envidraçada. Conceitos amadurecidos mais tarde no edifício de Comando do Alto do Rabagão - 4º e último escalão- com a sua "monumental" entrada, mas sobretudo na impressionante sala de máquinas da central subterrânea objecto de um cuidado "arranjo arquitectónico" com uma expressiva iluminação artificial coada através de uma rede de favos hexagonais, e um tratamento gráfico bem ao gosto dos anos 50 nas restantes superfícies: pavimento e paredes. A nave adquire um ambiente de fascinante artificialidade no seu elogio da técnica e da máquina.

Ao contrário, nas instalações sociais e restaurante da Caniçada, a componente natural é enfatizada com a exploração das pré-existências levado ao limite: a construção é tornada parte integrante do meio natural, implantando-se sobre um magnífico afloramento granítico e adaptando-se sucessivamente às plataformas que o definem. O princípio da continuidade com o meio é geradora de um espaço interno rico em tensões e intensas relações visuais e sensitivas. Finalmente a Pousada de Pisões representa o culminar deste processo tendente a fundir regional e moderno, nacional e internacional. Do conjunto das pousadas é claramente a mais afirmativa: resposta à aridez da paisagem e à escala do programa, situada no alto de um largo cabeço, estende-se tentacularmente como que a absorver a imensidão da paisagem. Do corpo longilíneo dos quartos inflectido na entrada solta-se um braço que corresponde ao espaço de transição que liga à sala de jantar conformada numa planta centralizada desenhada em hexágono envidraçado que assim se abre caleidoscopicamente à natureza. O rigor do desenho, o sentido do sítio e dos acessos, a criação de ambientes qualificados, a escolha dos materiais, as inflexões do espaço, o jogo das diversas plataformas com os diferentes valores de luz, as relações dos vãos com a paisagem, concorrem para a força desta obra inesperada.

  • Barragem de Caniçada / Foto: DE/ IPPAR

  • Edifício de Comando e Descarga / Foto: DE/ IPPAR

Sem perder as raízes culturais no Portugal artesanal, na paisagem inspiradora, mas também capaz de dar resposta aos desafios da mais alta tecnologia, este ciclo de obras desenvolvidas ao longo de cerca de dez anos testemunha uma pesquisa articulada quer numa mestria técnica claramente enunciadora dos valores do progresso, que afinal a electrificação representava em Portugal no pós-guerra, mas também denuncia, nos programas sociais, a real possibilidade de uma continuidade histórica revelada na aproximação às necessidades reais, à economia de meios e à funcionalidade, constantes afinal de um saber secular.


Ana Tostões/ Docomomo Ibérico
Junho 2002


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